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domingo, 5 de abril de 2015

O (o)caso de Tristão Bonifácio

     Tristão Bonifácio caminha sozinho mas não só - acompanham-no os seus pensamentos, dezenas deles, sobre tudo e, sobretudo, sobre nada. Vive sozinho, não é propriamente um animal sociável, e quando tenta ser mais do que aquilo que é, quando se apercebe que foi mais além do que aquilo que deveria ter ido, isola-se. Não que tenha muito de quem se isolar - uma mão cheia de amigos da faculdade, dois ou três colegas de trabalho, mas isola-se. Do mundo e dele próprio. Nos últimos tempos tem andado com os pensamentos trocados - coisas da vida -, e como tal está indeciso entre o isolamento ou isolar-se. Decisão difícil que levará algum tempo a tomar.
     Será certamente difícil encontrar alguém com um nome tão identificável com a sua personalidade como Tristão. Tinha uma tia chamada Felizarda Correia, que de felizarda apenas teria o nome, uma vez que por norma, ante até de dizer "bom dia", dizia "oh valha-me Deus Nosso Senhor"; e uma vizinha chamada Benvinda da Anunciação, que era a maior intriguista da Rua das Arestas e, portanto, nunca muito bem vinda à maioria dos lares. Havia ainda um colega da catequese que se chamava Cândido Inocêncio que, bom, em dezena e meia de anos se havia tornado no maior delinquente que aquela cidade algum dia tinha gerado.
     Mas Tristão era mesmo tristão, ou tristonho, se quisermos ir mais ao pormenor. Poucos lhe conheciam o sorriso, ninguém lhe conhecia a alma. Podia ser Tristão, mas nenhuma Isolda o acompanhava. Preferia não se dar a conhecer, tão pouco se permitia a que o circundassem. Mesmo que as coisas não lhe corriam bem (e quase sempre a vida lhe corria mal...), aquele egoísmo altruísta que tão bem o caracterizada levava-o a omitir a verdade - era mais fácil dizer que sim do que explicar o porque não. Tristão era mesmo assim, uma tristeza pessoal e intransmissível.
     Ia longa a caminhada e decidiu encostar-se a um sobreiro para aliviar um pouco o cansaço. Aí os pensamentos adensaram-se. "Mas onde tenho eu andado com a cabeça?", refletiu Tristão. "Então eu pensava mesmo que..." um sapo, movido pela curiosidade daquela figura que quase o pisara há instantes, fê-lo interromper os pensamentos, regressar à realidade e retomar a marcha. Não sabemos se o encontro com o sapo foi inspirador, mas o Tristão que se fez de novo ao caminho parecia diferente. Pela primeira vez em muito tempo Tristão Bonifácio sorriu. Não era o sorriso forçado que de quando em vez era obrigado a forjar. Não, desta vez era algo que se assemelhava a um sorriso de desafio, um sorriso de quem já havia tomado uma decisão:
     - Não! C'os diabos! Desta vez não me vou isolar!
     Este ocaso seria especial. Não ia ser um isolamento, mas sim um ocaso do próprio Tristão que queria definitivamente deixar de o ser. Tristão queria ser apenas Bonifácio.
     Irá conseguir? Em breve descobriremos...