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terça-feira, 3 de outubro de 2017

A nossa noite

Somos feitos de desencontros, de atos inusitados, de equívocos que deitam por terra o mais meticuloso dos planos.
Os ingredientes que comprei já não serão cozinhados, nem o vinho que cuidadosamente escolhi será servido nos copos que guardei para o efeito. A playlist selecionada para aquele jantar já não tocará, flores não brilharão porque as velas tão pouco arderão. Pensei em tudo, queria que esta noite fosse perfeita. A Nossa Noite, como eu secretamente lhe chamava, seguida da nossa manhã, sem pressas, sem compromissos, apenas nos os dois parados no tempo. 
Mas tu não vieste, não há caril de gambas, não há arroz aromático, não há vinho branco do Douro, não há blues, nem rosas nem velas... Nada, somente eu a experimentar mais uma noite de solidão neste desterro, a jantar uma sopa ao som de Haydn, sem uma palavra dita, um pensamento confidenciado, um carilho partilhado. Nada. Uma noite igual a centenas que a precederam e a tantas outras que se seguirão. 
Mas há que assumir os erros, interiorizá-los, passar pelas privações para não voltar a cair neles. Desperdicei hoje um dia na tua companhia, nós, que não temos tempo para perder, hoje assim tivemos de agir por minha causa. Resta-me levantar a cabeça e aprender.
Está a ser merecido. Doloroso mas merecido.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Noturno

Fecho os olhos e despeço-me.
Espero-te num sítio chamado felicidade,
com o conforto do nosso abraço,
o consolo dos nossos beijos,
e a luz dos nossos olhos.
Um sítio onde somente nos os dois existimos.

Vens ter comigo?

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mantém-me junto a ti...

... nas manhãs agitadas de verão, nas quais os corpos não se aguentam muito tempo entre dois lençóis, quatro paredes ou duas águas furtadas, tal é a vontade de apanharem os remanescentes raios solares do estio que caminha passos largos para a mudança da estação.
... naquelas tardes solarengas de outono, onde os relvados resplandecem viçosos pelas chuvas que os regam, as árvores fulgem pelos tons doirados, escarlates e pardos das folhas que, insconscientemente, se preparam beijar a terra.
... nas noites frias e chuvosas de Inverno. Sei que vais querer a segurança do meu abraço, a suavidade dos meus lábios, desejar o calor do meu corpo ou, simplesmente, a serenidade da minha presença.

... que sabes que eu estou contigo, que quero estar, e que à nossa maneira manteremos os momentos que são nossos, aquelas piadas que só nós percebemos, os comentários que só nós atingimos, os pensamentos mais íntimos que desejamos concretizar.
... que deste lado continuo a cultivar-te em mim, e faz-me bem ter-te comigo. Fizeste-me voltar a ter vontade de escrever poemas, como este que me surgiu repentinamente esta tarde:

Aquela rua desconhecida que eu ignorava
Chamar-se tão simplesmente: Tu,
Desvendada apenas enquanto beijava
O teu corpo alvo, terno, meigo e nu.

Olhei para ti assim que te debruçaste
E nos teus olhos encontrei a tranquilidade.
Porém assim que naquele dia te afastaste
Meu coração se apertou de saudade.

E virás tu mais uma vez do nada
Abraçar o meu corpo cansado de desejo
E te oferecerei, porque não tenho mais nada
Um poema encarnado num beijo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O último olhar sobre o Darro

Há muito que deixei de esperar o que quer que fosse do futuro. Desde a derrota de Málaga que cada rosto daqueles jovens trespassados pelas espadas dos cristãos me fazem troçar de tudo aquilo que está para vir. O que distingue a sorte dos seus sonhos traídos dos dos meus? Eles estão junto a Allah, eu mantenho-me neste inferno em que se transformou o Al-Andaluz. Aqui me encontro, sentado num muro do Albaicín contemplando os últimos raios de sol deste dia que talvez possa ser o derradeiro. Dizem que é uma questão de dias até que o exército dessa rameira Isabel, a quem os cristãos se curvam como a um emir, invada Granada. Se isso acontecer é o nosso fim. Boabdil é fraco, não herdou a tempera dos Nazarí, não saberá defender o emirado.
Ah, minha Zorayda, como tudo seria mais fácil se aqui estivesses comigo! Como choro todos os dias a tua ausência, o vazio que deixaste no nosso lar e no meu coração. Allah é grande e quer os melhores junto a ele, eu sei, mas poderia ter-me deixado ao menos despedir-me de ti, minha mulher. Percebes agora porque é que deixei de acreditar no futuro, e o tanto que os rostos daqueles jovens caídos me mercaram? Eu só pensava em regressar ao meu lar que eram os teus braços e talvez, quem sabe, nesse dia depositar em ti a semente para o nosso primeiro filho. Julgava-te ansiosamente à minha espera, disposta a ouvir os desabafos de um soldado derrotado, com um pão acabado de cozer sobre o triclínio... mas o que encontrei foi a casa cheia de vizinhos a velarem-te. Se a guerra tivesse sido encurtada em dois dias eu teria chegado a tempo de pelo menos me despedir de ti Zorayda, de olhar-te nas duas esmeraldas que reluziam nos teus olhos e dizer-te o quanto te amei enquanto foste minha mulher. Sim, estou sentado no mesmo muro onde várias vezes vínhamos desfrutar do pôr-do-sol depois das orações. Lá em baixo corre o Darro, sereno, vindo das montanhas. que bela melodia o estrepidar das suas águas a caminho do Guadalquivir. Lembro-me agora como achavas bela a Alhambra nesta altura do dia, e como juravas que nunca haveríamos de deixar Granada, só para podermos manter o privilégio de a poder contemplar. Como poderia eu olvidar-te Zorayda? Escorrem-me as lágrimas pelo rosto árido de quem ja lutou em tantas batalhas que nem se recorda de metade. De que me valeria, ao certo recordar-me de vitórias se a grande derrota que tive - maior que Ronda ou Málaga - foi a derrota do tempo que que me privou de ti? Voltaremos um dia a encontrar-nos? Será que as nossas almas estão destinadas ao reencontro na eternidade? Se estão, minha Zorayda, que Allah seja breve a levar-me para junto de ti, e que então possamos viver tudo aquilo que alegremente ousamos planear em vida. Nesse dia sim, voltarei a acreditar no futuro.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

E tão somente efémeros


Perdi o teu toque e o teu cheiro, esqueci a tua voz e o teu olhar. Preciso de um esforço para me lembrar de ti, do teu rosto, dos teus cabelos, das tuas idéias...  e como foram vãs as promessas que trocamos, tão efémeras que nenhuma me vêm à memória. Não sei se existes, tão pouco sei se te reconheceria se te visse. Certamente que sim. Poucas pessoas pisam o chão com a mesma graça que tu. Se já não tens rosto, nem cheiro, nem toque, conservarás ainda a tua essência que me faria reconhecer-te no mais longínquo dos desterros. Se te vir e reconhecer, descansa, pois não te falarei. Perdi esse direito. Sabes, por vezes tenho vontade de partilhar contigo certas conquistas ou aqueles passos quotidianos que vamos dando pé-ante-pé. Não o faço. Não. Perdi esse direito. Já não me ouvirias para além do que é cordial, ou simplesmente educado. Perdi esse direito. Era ténue, vão, efémero, tal como efémeros foram aqueles momentos que já nem me recordo bem.

Não sei se existes, não sei se existo. E tão somente efémeros demos um dia as mãos... e tão somente efémeros um dia existimos um no outro...

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Como um sol que se espraia


O dia expirava-se a cada metro percorrido naquele fim de tarde. O destino seria um local à beira mar que lhes permitisse fitar o sol, um promontório, quem sabe, um simples areal... importava apenas visão limpa para o astro. 

Eis o areal! Logo miraram uma velha capela encrostada nas rochas que as ondas beijavam de forma repetida. Descalçaram-se antes de pisar a areia, logo de seguida caminharam de forma casual e quase instintiva até ao templo, subiram o primeiro vão de escadas e deixaram a vista repousar um pouco naquele horizonte inalcançável. Em baixo, a leste deles e do resto do mundo, uma criança brincava com o pai no espumar das ondas, como se aqueles últimos momentos de luz fossem o resumo perfeito do dia que então se preparava para terminar.
Tomás aproximou-se de Alexandra e entrelaçou-lhe os braços pela anca durante breves momentos, como se procurasse com aquele gesto garantir que o mais precioso tesouro não lhe fugisse, largando-a apenas quando sentiu os primeiros movimentos de desconforto de Alexandra. Afastou-se um pouco, sorrindo e fixando o olhar naquela linha ténue que separa o céu do mar e não demorou a subir até ao último vão de escadas, acompanhado de seguida por Alexandra.
Aí demoraram-se. Tomás pousou a mão no alpendre granítico e, num ostinato alheado esboçou aquele afago que desejava fazer na pele marmórea de Alexandra. Mantiveram-se em silêncio, naquele silêncio que tanto quer dizer... Tomás estava hipnotizado pelo quadro que a natureza lhe proporcionava observar e não queria profaná-lo com palavras vãs. Olhou para Alexandra e pensou para si no quanto gostava dela, na vontade que tinha de a abraçar, de a beijar, de lhe dizer ao ouvido que a admirava, que a amava, mas não, manteve o silêncio contemplativo e percebeu que estar ali, a sentir o vento que empurra a água a beijar a terra iluminada pelo sol, que toda aquela junção dos elementos observada em silêncio seria a mais bela declaração de amor que Tomás podia fazer. 
Não conteve a vontade de a abraçar, nem uma lágrima mal disfarçada, não evitou o beijo ternurento no ombro de Alexandra, nem a carícia nos seus braços que começavam a ceder ao frio. 
Ali ficaram até sentirem na pele o rigor do luscofusco pré-outonal. 
Partiram para suas casas entre as brincadeiras habituais.
Tomás ficou mais um pouco. Talvez ainda lá esteja.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

É uma pausa.

Um dia voltarei a escrever aqui. Por agora chega. A minha alma precisa de uma pausa. Uma grande pausa.
Até qualquer dia..