
O dia expirava-se a cada metro percorrido naquele fim de tarde. O destino seria um local à beira mar que lhes permitisse fitar o sol, um promontório, quem sabe, um simples areal... importava apenas visão limpa para o astro.
Eis o areal! Logo miraram uma velha capela encrostada nas rochas que as ondas beijavam de forma repetida. Descalçaram-se antes de pisar a areia, logo de seguida caminharam de forma casual e quase instintiva até ao templo, subiram o primeiro vão de escadas e deixaram a vista repousar um pouco naquele horizonte inalcançável. Em baixo, a leste deles e do resto do mundo, uma criança brincava com o pai no espumar das ondas, como se aqueles últimos momentos de luz fossem o resumo perfeito do dia que então se preparava para terminar.
Tomás aproximou-se de Alexandra e entrelaçou-lhe os braços pela anca durante breves momentos, como se procurasse com aquele gesto garantir que o mais precioso tesouro não lhe fugisse, largando-a apenas quando sentiu os primeiros movimentos de desconforto de Alexandra. Afastou-se um pouco, sorrindo e fixando o olhar naquela linha ténue que separa o céu do mar e não demorou a subir até ao último vão de escadas, acompanhado de seguida por Alexandra.
Aí demoraram-se. Tomás pousou a mão no alpendre granítico e, num ostinato alheado esboçou aquele afago que desejava fazer na pele marmórea de Alexandra. Mantiveram-se em silêncio, naquele silêncio que tanto quer dizer... Tomás estava hipnotizado pelo quadro que a natureza lhe proporcionava observar e não queria profaná-lo com palavras vãs. Olhou para Alexandra e pensou para si no quanto gostava dela, na vontade que tinha de a abraçar, de a beijar, de lhe dizer ao ouvido que a admirava, que a amava, mas não, manteve o silêncio contemplativo e percebeu que estar ali, a sentir o vento que empurra a água a beijar a terra iluminada pelo sol, que toda aquela junção dos elementos observada em silêncio seria a mais bela declaração de amor que Tomás podia fazer.
Não conteve a vontade de a abraçar, nem uma lágrima mal disfarçada, não evitou o beijo ternurento no ombro de Alexandra, nem a carícia nos seus braços que começavam a ceder ao frio.
Ali ficaram até sentirem na pele o rigor do luscofusco pré-outonal.
Partiram para suas casas entre as brincadeiras habituais.
Tomás ficou mais um pouco. Talvez ainda lá esteja.