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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O último olhar sobre o Darro

Há muito que deixei de esperar o que quer que fosse do futuro. Desde a derrota de Málaga que cada rosto daqueles jovens trespassados pelas espadas dos cristãos me fazem troçar de tudo aquilo que está para vir. O que distingue a sorte dos seus sonhos traídos dos dos meus? Eles estão junto a Allah, eu mantenho-me neste inferno em que se transformou o Al-Andaluz. Aqui me encontro, sentado num muro do Albaicín contemplando os últimos raios de sol deste dia que talvez possa ser o derradeiro. Dizem que é uma questão de dias até que o exército dessa rameira Isabel, a quem os cristãos se curvam como a um emir, invada Granada. Se isso acontecer é o nosso fim. Boabdil é fraco, não herdou a tempera dos Nazarí, não saberá defender o emirado.
Ah, minha Zorayda, como tudo seria mais fácil se aqui estivesses comigo! Como choro todos os dias a tua ausência, o vazio que deixaste no nosso lar e no meu coração. Allah é grande e quer os melhores junto a ele, eu sei, mas poderia ter-me deixado ao menos despedir-me de ti, minha mulher. Percebes agora porque é que deixei de acreditar no futuro, e o tanto que os rostos daqueles jovens caídos me mercaram? Eu só pensava em regressar ao meu lar que eram os teus braços e talvez, quem sabe, nesse dia depositar em ti a semente para o nosso primeiro filho. Julgava-te ansiosamente à minha espera, disposta a ouvir os desabafos de um soldado derrotado, com um pão acabado de cozer sobre o triclínio... mas o que encontrei foi a casa cheia de vizinhos a velarem-te. Se a guerra tivesse sido encurtada em dois dias eu teria chegado a tempo de pelo menos me despedir de ti Zorayda, de olhar-te nas duas esmeraldas que reluziam nos teus olhos e dizer-te o quanto te amei enquanto foste minha mulher. Sim, estou sentado no mesmo muro onde várias vezes vínhamos desfrutar do pôr-do-sol depois das orações. Lá em baixo corre o Darro, sereno, vindo das montanhas. que bela melodia o estrepidar das suas águas a caminho do Guadalquivir. Lembro-me agora como achavas bela a Alhambra nesta altura do dia, e como juravas que nunca haveríamos de deixar Granada, só para podermos manter o privilégio de a poder contemplar. Como poderia eu olvidar-te Zorayda? Escorrem-me as lágrimas pelo rosto árido de quem ja lutou em tantas batalhas que nem se recorda de metade. De que me valeria, ao certo recordar-me de vitórias se a grande derrota que tive - maior que Ronda ou Málaga - foi a derrota do tempo que que me privou de ti? Voltaremos um dia a encontrar-nos? Será que as nossas almas estão destinadas ao reencontro na eternidade? Se estão, minha Zorayda, que Allah seja breve a levar-me para junto de ti, e que então possamos viver tudo aquilo que alegremente ousamos planear em vida. Nesse dia sim, voltarei a acreditar no futuro.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

E tão somente efémeros


Perdi o teu toque e o teu cheiro, esqueci a tua voz e o teu olhar. Preciso de um esforço para me lembrar de ti, do teu rosto, dos teus cabelos, das tuas idéias...  e como foram vãs as promessas que trocamos, tão efémeras que nenhuma me vêm à memória. Não sei se existes, tão pouco sei se te reconheceria se te visse. Certamente que sim. Poucas pessoas pisam o chão com a mesma graça que tu. Se já não tens rosto, nem cheiro, nem toque, conservarás ainda a tua essência que me faria reconhecer-te no mais longínquo dos desterros. Se te vir e reconhecer, descansa, pois não te falarei. Perdi esse direito. Sabes, por vezes tenho vontade de partilhar contigo certas conquistas ou aqueles passos quotidianos que vamos dando pé-ante-pé. Não o faço. Não. Perdi esse direito. Já não me ouvirias para além do que é cordial, ou simplesmente educado. Perdi esse direito. Era ténue, vão, efémero, tal como efémeros foram aqueles momentos que já nem me recordo bem.

Não sei se existes, não sei se existo. E tão somente efémeros demos um dia as mãos... e tão somente efémeros um dia existimos um no outro...