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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Não espero que alguém compreenda porquê

Não era compreensão que eu esperava, era conforto. 
Esperava que se cumprissem os meus desejos, os meus sonhos, as minhas esperanças... Nada, nada se cumpre, fica só o vazio da tristeza.
É aquela tristeza dos sonhos que nunca se chegarão a cumprir. Aquele cansaço de lutar contra o irremediável. Não sou Sísifo, não nasci para o ser. Serei por certo Tântalo, que vê sempre tudo escoar-se por entre os dedos, mesmo quando o inatingível está ao meu alcance. 
Pensei que desta vez pudesse acontecer. Eu estava, desta feita, desposto a lutar. Tinha certezas. Oh, ainda as terei. Mas nem sempre depende só de nós, aliás, nunca é da maneira como nós queremos...
E aquela tristeza assola-me. Até quando? Não sei...


domingo, 3 de maio de 2015

(Des)encontro pendente

    Se à hora de sempre eu não estiver lá, não esperes por mim. Parte. Segue o teu caminho. Leva os teus sonhos que um dia foram meus, nossos, leva um pedaço de mim guardado no pensamento. Eu levo-te inteira em mim.
    Se no lugar do costume por lá não me encontrares, não me procures. Parti. Tracei um novo caminho. Levo os desejos que sempre foram apenas meus, só meus, fica com aqueles que sempre perseguiste. Eu sigo-te em mim.
     Se perguntares por mim e ninguém souber, não insistas. Fica. Não andes atrás do que não queres, procura antes aquilo que te completa. Eu tenho-te em mim.
     Se te quiseres recordar de mim, fá-lo com todo o carinho. Repete-o. Lembra-te dos momentos que partilhamos, as nossas confidências, as nossas brincadeiras, os meus olhos a brilhar cada vez que falava contigo. A lágrima que escorria no dia em que disse o que sentia por ti. Recorda-te do quão especial eras para mim
     E virão as chuvas do meu Outono, o gelo do teu Inverno… só aí sentirás a falta da Primavera que julgamos nunca vir a terminar, e do calor do Verão que era tão nosso.
Parti. Deixei de conseguir perceber se a esperança conseguia superar toda a impossibilidade, ou se a impossibilidade limitava toda a esperança.
     Chegará a altura em que olharás para trás e dirás, tal como Hamlet, "amei-te, um dia". Eu responderei, lá de onde estiver, "ama-te-ei" até um dia... E então, se sentires saudades minhas sabes onde me encontrar. Estarei à hora de sempre, no lugar do costume, toda a gente to dirá. Só te cabe em ti encontrares-me.  

domingo, 5 de abril de 2015

O (o)caso de Tristão Bonifácio

     Tristão Bonifácio caminha sozinho mas não só - acompanham-no os seus pensamentos, dezenas deles, sobre tudo e, sobretudo, sobre nada. Vive sozinho, não é propriamente um animal sociável, e quando tenta ser mais do que aquilo que é, quando se apercebe que foi mais além do que aquilo que deveria ter ido, isola-se. Não que tenha muito de quem se isolar - uma mão cheia de amigos da faculdade, dois ou três colegas de trabalho, mas isola-se. Do mundo e dele próprio. Nos últimos tempos tem andado com os pensamentos trocados - coisas da vida -, e como tal está indeciso entre o isolamento ou isolar-se. Decisão difícil que levará algum tempo a tomar.
     Será certamente difícil encontrar alguém com um nome tão identificável com a sua personalidade como Tristão. Tinha uma tia chamada Felizarda Correia, que de felizarda apenas teria o nome, uma vez que por norma, ante até de dizer "bom dia", dizia "oh valha-me Deus Nosso Senhor"; e uma vizinha chamada Benvinda da Anunciação, que era a maior intriguista da Rua das Arestas e, portanto, nunca muito bem vinda à maioria dos lares. Havia ainda um colega da catequese que se chamava Cândido Inocêncio que, bom, em dezena e meia de anos se havia tornado no maior delinquente que aquela cidade algum dia tinha gerado.
     Mas Tristão era mesmo tristão, ou tristonho, se quisermos ir mais ao pormenor. Poucos lhe conheciam o sorriso, ninguém lhe conhecia a alma. Podia ser Tristão, mas nenhuma Isolda o acompanhava. Preferia não se dar a conhecer, tão pouco se permitia a que o circundassem. Mesmo que as coisas não lhe corriam bem (e quase sempre a vida lhe corria mal...), aquele egoísmo altruísta que tão bem o caracterizada levava-o a omitir a verdade - era mais fácil dizer que sim do que explicar o porque não. Tristão era mesmo assim, uma tristeza pessoal e intransmissível.
     Ia longa a caminhada e decidiu encostar-se a um sobreiro para aliviar um pouco o cansaço. Aí os pensamentos adensaram-se. "Mas onde tenho eu andado com a cabeça?", refletiu Tristão. "Então eu pensava mesmo que..." um sapo, movido pela curiosidade daquela figura que quase o pisara há instantes, fê-lo interromper os pensamentos, regressar à realidade e retomar a marcha. Não sabemos se o encontro com o sapo foi inspirador, mas o Tristão que se fez de novo ao caminho parecia diferente. Pela primeira vez em muito tempo Tristão Bonifácio sorriu. Não era o sorriso forçado que de quando em vez era obrigado a forjar. Não, desta vez era algo que se assemelhava a um sorriso de desafio, um sorriso de quem já havia tomado uma decisão:
     - Não! C'os diabos! Desta vez não me vou isolar!
     Este ocaso seria especial. Não ia ser um isolamento, mas sim um ocaso do próprio Tristão que queria definitivamente deixar de o ser. Tristão queria ser apenas Bonifácio.
     Irá conseguir? Em breve descobriremos...

sábado, 28 de março de 2015

Madrugada ao rio

     Acordou mais cansado do que se tinha deitado. Era assim há pelo menos três meses, desde o momento em que deixou o trabalho na Old Lights and Wire Company para começar a trabalhar nas St Katherin Docs. Havia trocado Bentworth pela Londres, que tanto se ouvia por lá falar, à procura de uma vida que o libertasse do jugo dos grandes barões que detinham as terras que trabalhava. Deixou de ser servo de um homem para, sem que se fosse apercebendo, se tornasse escravo de uma máquina. Deixou de trabalhar de sol a sol para passar semanas e semanas sem sequer o ver. Deixou a cottage onde vivia com os pais e os 5 irmãos que até então tinha resistido, por uma back-to-back house no east end de Londres. Deixou uma felicidade precária, para uma tristeza permanente.
     -Londres! Ah, Londres! - pensava ele enquanto descia a New Graver Lane em direção ao Tamisa - E pensar que esta cidade moribunda, fétida e cinzenta é a capital do maior império que este mundo já viu! A continuar assim, dentro de vinte anos não fica cá viva alma.
     Chegou finalmente ao seu destino. Em Wappings o Tamisa precipitava-se, doente, para um conjunto de meandros que o parecia fazer querer parar. Enquanto fitava o rio, ia jurar ter visto o cadáver de um cavalo. Não era de estranhar, o rio era por excelência a grande fonte de descarga dos londrinos sempre que estes queriam fazer desaparecer qualquer coisa - desde o lixo, até cadáveres de assassínios misteriosos.
     Pensou para consigo que, caso tivesse o hábito de fumar, seria aquele o momento ideal para desfrutar de um cigarro. Todavia Nathaniel não tinha vícios. Havia experimentado uma vez um cigarro que o seu colega Hughes Boots lhe havia cedido, mas tal foi a agonia do ataque de tosse e o vexame subsequente que nunca mais voltou a repetir tal façanha. Tinha também dificuldade em se recordar da última vez que tinha bebido para além da sua conta. Talvez no dia em que os hammers venceram os rivais gunners num jogo de foot-ball. O futebol, talvez esse desporto que fazia furor na Londres fétida fosse o seu único vício ou, quanto muito, o único prazer a que se permitia. Todos os sábados lá ia Nat, cidade a cima, até à zona norte, ver o seu West Ham. Também ele jogava, com os companheiros, na equipa das docas, o St. Katherine Workers, onde cumpria o papel de ponta direita.
     Uma briza mais forte fê-lo apertar o pedaço de pano com o qual resguardava o pescoço. Era das poucas coisas que tinha trazido de Bentworth, no Hampshire, e que ainda restavam. O pedaço de pano e a sua Rose. Lançaram-se juntos nesta aventura ele para fugir à tirania de um lorde, ela para fugir aos maus tratos do pai que, dia sim dia também chegava a casa ébrio e fustigava a mulher e as três filhas. Ficou assim desde o nascimento da filha mais nova quando se apercebeu que afinal não ia ter o rapaz que tanto esperava. Rose e Nat mudaram-se então para Londres. Ele, depois de dois dias a pernoitar junto da porta de uma fábrica, conseguiu ser admitido para uma escravidão (mal) remunerada. Ela foi aprender a arte da custura, na qual, admita-se não se safa nada mal. Pensava nela, que certamente ainda dormiria. Tinha medo que chegasse o dia em que a situação se degradasse e ela, tal como centenas de utras mulheres por essa Londres fora, se visse obrigada a cair nas malhas da marginalidade... Fora um ou outro amigo feitos na Old Lights, só se tinham a eles mesmos e aos planos que iam sonhando poder um dia concretizar.
     Os seus pensamentos foram interrompidos pelo cantar de um bando de corvos. Seriam estes da Torre? Seriam eles descendentes dos corvos que viram aquela aleivosa da Ana Bolena ser decapitada? Os corvos faziam-no, invariavelmente, arrepiar. Lembranças da infância...
Pôs-se então a caminho das docas e, assim que ouviu as badaladas da St Pauls Shadwell acelerou o passo.
     Afinal, não tinha todo o tempo do mundo...