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sábado, 28 de março de 2015

Madrugada ao rio

     Acordou mais cansado do que se tinha deitado. Era assim há pelo menos três meses, desde o momento em que deixou o trabalho na Old Lights and Wire Company para começar a trabalhar nas St Katherin Docs. Havia trocado Bentworth pela Londres, que tanto se ouvia por lá falar, à procura de uma vida que o libertasse do jugo dos grandes barões que detinham as terras que trabalhava. Deixou de ser servo de um homem para, sem que se fosse apercebendo, se tornasse escravo de uma máquina. Deixou de trabalhar de sol a sol para passar semanas e semanas sem sequer o ver. Deixou a cottage onde vivia com os pais e os 5 irmãos que até então tinha resistido, por uma back-to-back house no east end de Londres. Deixou uma felicidade precária, para uma tristeza permanente.
     -Londres! Ah, Londres! - pensava ele enquanto descia a New Graver Lane em direção ao Tamisa - E pensar que esta cidade moribunda, fétida e cinzenta é a capital do maior império que este mundo já viu! A continuar assim, dentro de vinte anos não fica cá viva alma.
     Chegou finalmente ao seu destino. Em Wappings o Tamisa precipitava-se, doente, para um conjunto de meandros que o parecia fazer querer parar. Enquanto fitava o rio, ia jurar ter visto o cadáver de um cavalo. Não era de estranhar, o rio era por excelência a grande fonte de descarga dos londrinos sempre que estes queriam fazer desaparecer qualquer coisa - desde o lixo, até cadáveres de assassínios misteriosos.
     Pensou para consigo que, caso tivesse o hábito de fumar, seria aquele o momento ideal para desfrutar de um cigarro. Todavia Nathaniel não tinha vícios. Havia experimentado uma vez um cigarro que o seu colega Hughes Boots lhe havia cedido, mas tal foi a agonia do ataque de tosse e o vexame subsequente que nunca mais voltou a repetir tal façanha. Tinha também dificuldade em se recordar da última vez que tinha bebido para além da sua conta. Talvez no dia em que os hammers venceram os rivais gunners num jogo de foot-ball. O futebol, talvez esse desporto que fazia furor na Londres fétida fosse o seu único vício ou, quanto muito, o único prazer a que se permitia. Todos os sábados lá ia Nat, cidade a cima, até à zona norte, ver o seu West Ham. Também ele jogava, com os companheiros, na equipa das docas, o St. Katherine Workers, onde cumpria o papel de ponta direita.
     Uma briza mais forte fê-lo apertar o pedaço de pano com o qual resguardava o pescoço. Era das poucas coisas que tinha trazido de Bentworth, no Hampshire, e que ainda restavam. O pedaço de pano e a sua Rose. Lançaram-se juntos nesta aventura ele para fugir à tirania de um lorde, ela para fugir aos maus tratos do pai que, dia sim dia também chegava a casa ébrio e fustigava a mulher e as três filhas. Ficou assim desde o nascimento da filha mais nova quando se apercebeu que afinal não ia ter o rapaz que tanto esperava. Rose e Nat mudaram-se então para Londres. Ele, depois de dois dias a pernoitar junto da porta de uma fábrica, conseguiu ser admitido para uma escravidão (mal) remunerada. Ela foi aprender a arte da custura, na qual, admita-se não se safa nada mal. Pensava nela, que certamente ainda dormiria. Tinha medo que chegasse o dia em que a situação se degradasse e ela, tal como centenas de utras mulheres por essa Londres fora, se visse obrigada a cair nas malhas da marginalidade... Fora um ou outro amigo feitos na Old Lights, só se tinham a eles mesmos e aos planos que iam sonhando poder um dia concretizar.
     Os seus pensamentos foram interrompidos pelo cantar de um bando de corvos. Seriam estes da Torre? Seriam eles descendentes dos corvos que viram aquela aleivosa da Ana Bolena ser decapitada? Os corvos faziam-no, invariavelmente, arrepiar. Lembranças da infância...
Pôs-se então a caminho das docas e, assim que ouviu as badaladas da St Pauls Shadwell acelerou o passo.
     Afinal, não tinha todo o tempo do mundo...


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